Não se ouve muito falar em caridade em anonimato. Há sempre atrás de cada gesto otimista um anseio por reconhecimento, uma vontade de ser visto por merecimento. Não se vê textos belos que são escritos para serem repassados, falando de um amor talvez já esquecido, de uma verdade calada, de uma dependência sedenta. Talvez o homem não mais deposite sua fé no próprio homem. Queremos ser os líderes, os cabeças, os oradores que têm sempre o direito da fala. Estamos sempre prontos para derrubar as pessoas com as nossas palavras e argumentações bem articuladas - tanto que passamos horas, senão dias, ensaiando uma só frase que arranque do ouvinte o máximo de motivação possível. Nos imaginamos sempre os mocinhos do filme, aqueles que morrem para salvar os outros, que não desistem nunca. E se nós estivermos sendo os vilões durante todo esse tempo? Ou pior que isso: sejamos, talvez, coadjuvantes na nossa própria história. Certa vez eu li num muro: "O sábio cala - a verdade por si fala", mas eu - cru que sou - nunca me reconheço ignorante, imagino sempre que os outros têm muito a aprender de mim, mas eu... passo tanto tempo ensaiando os sermões que tenho para todo mundo que nunca paro para escutar alguém. Eu não vou dizer que tenho vontade de que um dia as coisas mudem, ou que as pessoas são um mistério, ou que eu preciso aprender a viver melhor. Não, o mundo já conhece isso. Todo mundo sabe de tudo, mas se esquece. Eu me esqueço. Eu estufo o peito para dizer que eu consigo mover o impossível com minhas ideias, mas, quando olho no espelho, nem sempre sei quem sou. Eu me esqueço, ou melhor, eu esqueço de mim. Eu me deixo jogado na cama com alguma ação na ponta dos dedos e uma coragem na ponta da língua, mas me esqueço ali no canto. Não se acredita mais em milagres porque eles acontecem quando não nos resta nada além deles, mas eu sempre espero tanto de tudo - talvez não haja mais nenhum segredo. Talvez para mim não haja nenhuma herança, e eu seja um descrente qualquer que deixou de exercer o dom de entregar-se.
Neemias Melo
Escreveu pra mim!
ResponderExcluir"Todos sabem tudo, menos se calar, todos querem ensinar, precisam de atenção"
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