terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta a uma amiga

Mas eu te quero aqui comigo, passarinho, e lembrar-me daquele tempo em que éramos apenas nós dois no País das Maravilhas. Eu quero estar em sintonia completa com o teu coração e derramar as minhas lágrimas nas tuas mãos, pois o nosso voo é tão solitário. Vem cá, suja um pouco mais os pés na lama e vamos andar por aí em silêncio, sendo atingidos vez ou outra pelos raios de sol que atravessam a densa folhagem do alto. Eu sempre senti tanta saudade de mim, da minha integridade aprumada no peito, dos meus cacos ajuntados, mas sinto tua falta mais que ontem, e isso dói em um lugar que eu não consigo encontrar. Eu me lembro de uma vez ter prometido jamais partir, mas fiz pior, muito pior, me escondendo de ti no nosso próprio mundo, o fazendo desmoronar, agora que tu te vias desamparada. Eu sou a parte mais egoísta do meu orgulho, e sempre moldei nossos encontros à tua entrega, soprando essas verdades achadas no lixo que todo mundo se esqueceu de acreditar. Tu foste a minha mais doce mentira, e não porque o que vivemos não foi real, mas porque tu és a parte agora cantada no coro da minha canção mais emotiva: a parte que fica no peito para sempre com um gosto de pôr-do-sol. E por se falar em pôr-do-sol, há tempos que o nosso já chegou, e eu não estou aqui para me despedir. Uma vez que nossos nomes foram embaralhados, esse mundo que nasceu permanece ali, mesmo que morramos, mesmo que cresçamos – e olha só como isso veio a acontecer tão rapidamente – mesmo que percamos nossa fé, essa parte eterna, que brotou dos nossos tornozelos como galhos e guerras, agora compõe a última parte da nossa sentença: o abraço. E por não saber se estamos ou não distantes ao ponto de não ligarmos a dor ao descaso ou o retorno à promessa, digo-te que meus caminhos desconhecem os teus, mas minha alma conhece o teu canto, canta pra mim de noite e eu venho correndo, mesmo que fique escondido enquanto tu morres. Fico de longe vendo a parte bonita de mim que tu guardaste com cuidado, receoso de que me descubras em meio aos meus pedaços. Como já dizia a canção que tu tanto amas: “Take a sad song and make it better”, porque, seja lá o que tu encontrarás daqui para frente, passarinho, tua estrada é apenas tu quem enxerga e, mesmo que eu não esteja ao teu lado durante a trajetória, estarei atrás, gritando, preso às minhas amarras, que tu prossigas sem pensar no dom que não chegou ontem. Eu confio em ti, muito mais do que já confiei em mim. Então é isso, Austrália é apenas o teu quintal nessa alma infinita que tens, alcança o mundo com o teu legado e segue com uma só certeza: teu sonho é puro.

De: Neemias Melo Para: Passarinho

sexta-feira, 12 de agosto de 2011


E eu que não imaginava a existência de um futuro em que você não estivesse ao meu lado. Ai como foi tolo! Sempre me apanhava sonhando com nós dois dançando debaixo da chuva, rindo da moça que não tinha um guarda-chuva e do cachorro que latia para o gato dentro da lata de lixo. Sempre me peguei pensando: Que é que ela irá querer para o jantar após chegar de viagem? Fazia bolo de laranja, pavê de chocolate, frango com batatas, arroz com bife e suco de pêssego, para que não faltasse nada que pudesse lhe agradar. Mas você sequer chegou. Pegava aquele violão todos os dias e ia para a rede que eu havia colocado na varanda, cantava na esperança de lhe receber com uma das músicas que escrevi nas noites insones, mas não, o último acorde ia se propagando sem a esperança de uma porta se abrindo ou uma mala sendo posta no chão. Eu antes de lhe encontrar era passarinho voando livre, despreocupado em estabelecer morada, era música de bar sujo no fim da esquina, era café preto e amargo. Hoje eu sou um gato que lhe implora por uma coleira e uma noite na mesma cama, uma flauta melodiosa que atrai donas de casas às janelas, chá morno que acalma os nervos. Eu, que não acreditava que a felicidade pudesse ser um dueto, fui pego de surpresa cantando, sozinho, a parte da canção que era feita para dois. E agora, me diga: que é que eu faço dessa parte que só cabe você? Que é que eu faço desse monte de carinho acumulado, desses beijos poupados, desses sorrisos guardados? Eu, que era feito de partes descascadas de uma parede pintada de amarelo, me fiz metade do portão que está aberto a lhe esperar. A outra metade? É a parte já arrancada pela súplica que fiz ao tempo: ou a traz para mim ou me entrega as palavras necessárias para transformar meu pranto em poesia.

Neemias Melo

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Assovia meu nome no dialeto secreto da nossa tribo, arranca meus olhos e cospe tua alma em mim, crava um punhal no meu peito e retira esse coração miserável. Escreve com uma agulha um poema na minha pele, faz meu sangue escorrer. Esvazia a sala e acende velas para um ritual secreto, me coloca de joelhos, abre um livro, abaixa minha cabeça, espalha sal grosso no chão, desenha uma estrela na minha testa, corta a minha jugular, ata meus braços para trás, me chicoteia, me arranha, me chuta, me mata, me enfia num escafandro pesado. Belisca minha fronte, põe ferro quente no meu cenho, lambe a porção de compaixão que escorreu com a última lágrima, me desnuda, me expõe, me machuca, me prende, corta meus pulsos, me afoga na noite com tuas vãs promessas, me queima, deita meu corpo exausto num lago e me deixa engolir aos poucos tua esperança distorcida. Não me esperes na estação, me usa, puxa meu cabelo e bate minha cabeça no chão sujo de um prazer consumado, me despreza, algema meus tornozelos numa árvore, escala o meu cinismo, me vomita, sinta nojo quando eu te olhar, me deixa chorando no escuro, vai e volta com outro. Ri na minha cara, me difama, golpeia meu queixo com teu joelho, quebra meus dedos com teu salto alto, desenha meu retrato na escória. Descarta-me, estraga-me, entorta-me, macula-me, mutila-me, faz-me um meio poeta incompreendido, meio orgulho ferido, meio mãos calejadas, meio pés esfolados, meio lábios rachados e boca seca, meio braços caídos e dilacerados, que arrastam uma outra metade já definhada.

Neemias Melo
Não quero que saibam meu nome
Não quero que repitam minha fala
Serei semente que pássaro apressado come
Serei palavra que sábio monge cala

É devagar que me arrasto na vida
Devagarinho, ajunto os pedaços
E com indiferença vejo minha calma sofrida
Arranjando espaço pra caber mais cansaço

Ponte quebrada, punhal estancado
Essa gente não sabe mais servir compaixão
Já arrumei a bagagem, levo junto o violão
Não me encaixo aqui – vou viver de passado

Nasce asa tecida de sonho, toda vez que canto,
Nos braços de um outro alguém
Algemo meus punhos, me faço refém
Libertando o canário e trazendo o espanto

Eu vou pra longe, que é lá que me cabe
Vou e talvez volte – mas nunca se sabe
Vou buscar um cheiro novo pra essas gavetas mofadas
Achar uma chave pra essa fechadura já enferrujada

Eu vou, e um dia talvez volte
E acabe encontrado uma outra triste alma que note
Que os espinho nascidos nesse coração que já foi meu
Acabam por matar o menino que há muito tempo perdeu

Neemias Melo

Sinto falta de você


Sinto falta de você. Do seu cheiro adocicado, do seu sorriso escapulido, da sua boca trêmula, dos seus dedos assustados, do seu cabelo insistente, das suas sobrancelhas caídas, dos seus olhos cansados, das suas pernas marcadas, das suas costas arqueadas, do seu punho cerrado, do seu coração apertado, da sua voz abafada, do seu joelho esfolado, dos seus pés gelados, da sua risada calada, da sua respiração desistente, dos seus ombros endurecidos, do seu olhar perdido, do seu choro bonito, do seu pescoço enrijecido. Sinto falta de você – mas sempre sinto falta de tanta coisa. E me sinto assim tão triste, porque você me fazia acreditar que o hoje traz a esperança que eu não alcancei ontem, porque você me levantava quando eu rastejava por conta própria, esperando alguém vir me tirar dos buracos que eu mesmo cavava e me enterrava. Eu sinto tanto a sua falta. Dos sonhos que desenhávamos, das músicas bobas que compúnhamos, dos castelos de areia que fazíamos, dos papéis exagerados que interpretávamos, das noites em claro que passávamos, das garrafas de vinho que secávamos, dos olhares dialogantes que trocávamos, das verdades escuras e frias das quais fugíamos, da inocência rara que guardávamos. Sinto falta de você, e não só da sua presença ao meu lado. Sinto falta de você, porque, seja lá o que você arrancou quando foi embora, acabou levando junto o pedaço de mim que me cabia.

Neemias Melo