A janela sempre esteve de bom tamanho, assim como os livros disseram tudo que eu precisava dizer. Ir lá fora sempre pareceu muito difícil. Tão bonito ver as estações cederem à complexidade do equilíbrio que nos sustém, mas, quanto ao retirar de cada folha e tingir de cada ponto de céu e nuvem que se vai, nunca coube a mim mover uma palha. Eu, por assim dizer, sou um cavaleiro acovardado. Histórias demais, sentimentos demais, mas minha armadura ainda está polida, intacta - vejo minha falta de coragem brilhando através dela. Porque é certo que nunca me vestiu essa ideia de balançar os braços, sacudir o orvalho da noite, suspirar o fresco espírito da manhã. Meus cotovelos se acostumaram com a moldura da janela, e os meus olhos já conheciam cada palmo estampado nos extremos do vidro embaçado pela minha respiração. Respirar me bastou até agora, e nada mais. O descompassar das batidas veio antes da adrenalina; os fios brancos e os olhos de quem morre chegaram antes do tempo; a lagarta, ainda no casulo, quis abrir as asas para cair. Um tipo de emoção que cabe na luz que entra pelas frestas irregulares das cortinas fez eu me sentir cuidado, quando tudo que eu mais quis foi ter sentido frio. E as músicas cuidaram de embalar meu ventre fechado e contorcido de romance inalcançado. Se eu sinto muito? Não sei dizer o que sou eu, o que é sentir, nem mesmo sei a medida que serve para muito. Eu sou alguma coisa não conhecida por não ter arriscado rasgar as fotos e sujar as mãos com sangue novo. Eu sou um tipo de animal acuado num pequeno quarto, sem querer cravar as unhas na terra, contente com linhas e quadrados e superfícies ocas. Ou talvez eu seja só mais um que desliga as luzes quando alguém passa de madrugada e olha para cima, sentindo ser vigiado. Eu sou um segredo que não precisava ser contado. Eu não preciso, eu sou calado, caído, molhado - de que? Lágrimas, talvez. Mas nem imagino se o gosto que elas têm é doce ou ralo, por não ter provado de gotas de outros olhos, outras dores. Aqui, nunca doeu. Eu sou uma parede branca que brinca de trincar, mas nem se mexe. Eu nunca quis fazer a vida acontecer.
Neemias Melo

