quarta-feira, 11 de julho de 2012


Falemos sobre o medo, então. Narremos sua essência inexata e seu potêncial de molde a tudo. Matenhamos perto seu cheiro de chuva, sua força cinza, seu vazio denso.
Falemos, então, sobre o frio - os galhos secos que unham a pele e excitam o corpo à tremedeira. A sinceridade da dor, a cumplicidade do silêncio e a imponência do escuro.
E falemos da verdade. Espremamos a ferida até que murche. Vejamos - nos parapeitos dos altos prédios - crianças mudas que choram por não encontrarem estrelas caídas ou mãos que impeçam a queda [o pulo]. Queiramos perto a exatidão dos olhos que enxergam longe e se perdem [nada veem].
E, também, falemos da tristeza, mãe dos que não dormem, mestra do medo, do frio e da verdade. Saibamos calar quando ela vem, esperar quando ela cresce e ceder quando ela abraça. Reconheçamos o pouco valor que temos - ou o nenhum - e esperemos a hora de desaparecer do mundo, do roteiro de Deus, das armadilhas dos sonhos, dos ruidos do vento, carregados em seus fortes antebraços [cócegas por fios soltos de seu manto negro desfiado]. Reverenciemos sua forma sólida, seus coágulos de sangue nas têmporas, seus rodeios infinitos e reticentes.
Por fim, falemos de mim. As cicatrizes, os erros, as falas em momentos oportunos que se perderam. Falemos das fugas, dos gestos falhos, das magras mãos. Riamos da pose morta, dos pés podres, do cabelo bem lavado e cheiroso. Gesticulemos em frente ao espelho - o mundo acenando para mim.Viremos as costas - o mundo a me esquecer. Exaltemos o amor - o mundo a me humilhar. Sejamos sinceros: nem mesmo o respeito próprio limpa um coração perdido, uma mente avulsa e um par de ombros cansados. Nem mesmo as palavras, que nada mudam, mas tudo tranformam. Nem mesmo a vontade de seguir em frente ou cair da cruz. Nem mesmo o tempo. Nem mesmo a falta que me faz - que faz a todos - ter um ninho a repousar a cabeça e deixar que os pensamentos cuidem de trazer um novo sol. Nem mesmo as repetições, a gradativa perca de fôlego. Nem mesmo nada.
Calemo-nos, depois. Prossigamos, apenas.

Neemias Melo

domingo, 27 de maio de 2012

Os sonhadores cantam baixo e o sol se põe. Uma sereia paira sobre o ar deixando um rastro de brilho. Uma flor definha e cai. Um moço varre o chão e aceita o café da moça que oferece dois tipos de adoçante. Um menino chicoteia as próprias costas, um passarinho foge por prever a chuva. Mãos espalmadas recobrem o chão e, bem baixo, de longe, ouve-se o canto dos que dormem. Olho ao meu redor. Todos acenam: o moço que varre, a sereia, as mãos que pisoteio. Chamam o meu nome e não abrem a boca. Conhecem-me sem me notar. Sentem que fui algo que deveria ter durado e simplesmente evaporou. Sentem minha falta. Sinto minha falta.
Fecho o livro que carregava nas mãos. Sigo em frente. Não olho para trás - não antes de ter atingido distância suficiente para ser considerado um estrangeiro quando retornasse. Não retorno. Todos continuam acenando. Guardo o livro na mochila que carrego nas costas. Dou as costas. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta.
Já não ouço o canto dos sonhadores e o sol já nasce. Deixo no peito o vazio oscilar entre solidão, saudade e tristeza, ao preencher-se. Nos dias em que ambos preenchem o peito, consigo chorar. Nos outros, não sinto nada. Ou sinto muito. Por todos. Por tudo. Sinto, apenas. As penas. Coçam. Sinto que caem ou crescem. Sinto medo, mas fecho os olhos. O escuro fortalece a crença e purifica os anseios. Ando crente e forte. Ando só. E eu não volto. Eu não volto.

domingo, 13 de maio de 2012


é chegado o inverno.
choro com frio;
adormeço cansado;
penso onde estarias se ainda me amasses.
abro os olhos.
estás ali diante,
bem diante de mim.
carregas nos olhos o amor do qual não sou digno.
sorris.
dói-me o teu riso.
dói-me a capacidade de sorrires com o nada que represento.
dói-me saber que, mesmo merecendo mais, te contentarás com pouco.
muito pouco.
é chegado o inverno.
lá fora, o céu nublado deixa o dia claro.
a luz invade o quarto onde estamos.
os corpos nus,
as mãos dadas.
tu dizes "eu te amo"
e eu cerro as pestanas
como se dissesse "sinto muito"

Neemias Melo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

fumaça


em que lapso de bocejo perdi o fim do mundo? ando perdido como perdidas estão todas as coisas. desprendo-me do teto - evito cores, raios, flechas. como um pêndulo entre lençóis, balanço. amanheceu, mas é hora de dormir. em que estação do ano perdi o último trem? soprei as velas do meu décimo nono aniversário e logo a vida inteira se apagou. reparto lágrimas em pequenas xícaras para cada caco de mim. acabado o sal, conta-se a sede. em que insônia perdi o medo do escuro? a lua pia, o piso é frio, o cobertor engole-nos - eu e todas as flores que abraço - repouso a cabeça sobre as mãos unidas. choro. tento colher um soluço, mas também o soluço se despedaça. a respiração falha. os punhos relaxam. um suspiro dança invisível. em que ventania esqueci de fechar a janela?

Neemias Melo

domingo, 25 de março de 2012

Eu começaria falando dos olhos ou das mãos. É sempre assim. Depois, diria como eles se tornaram ásperos, embora úmidos, inteiros. Descreveria os dedos irregulares, as pupilas dilatadas demais para um dia de muito sol. Viriam, também, os tremores por falta de qualquer coisa que suprisse o vazio torto dos dedos outrora descritos, o sussurro do vento, o pestanejar da tevê - como se meu quarto abafado falasse as coisas que eu não conseguia dizer por cansaço ou preguiça. Eu falaria sobre o espelho, o cabelo, a cozinha, as partes do meu corpo que as roupas escondem, do céu que nunca mudava quando eu me atrevia a desviar o olhar do chão, da perca de sentido quando eu falo dessas coisas. Escrito isto, eu exploraria algum sentido quebrado dos que nascem em alguns homens - cegueira, surdez, esquizofrenia - e acreditaria que eu mesmo sou cego, surdo e louco. Algum elemento natural ou fala esquecida me diria que é hora de fazer alguma coisa que eu não entenderia ou não faria questão de entender. Não ousaria tocar em uma palavra. Nenhuma só. Visitariam as linhas a morte, o tempo, o descaso. Eu fecharia a porta por não querer corrigir a postura que uso quando escrevo, e para que ninguém me visse chorar se eu perdesse o controle. Eu contaria os meus segredos em pilhas de metáforas, bordaria os meus medos com flores e cobriria os meus demônios com pedras limosas. Confesso que sempre achei lindo retomar o mesmo processo de sempre e ainda parecer imprevisível. Sempre adorei a ideia de escrever, ser alguém que doma as palavras com a mesma sagacidade com que o faz com os sentimentos. No final, eu sorriria, porque apenas eu sabia das coisas que não escrevi - embora tudo estivesse ali disfarçado. Aquele covarde que se escondia atrás de duas palavras de fé; aquele moço triste que jogava papéis picados para o alto e se convencia de que via neve; aquela coisa previsível que perdeu a identidade de menino ou homem, pássaro ou gigante, mas que voltava ao canto para rabiscar o ladrilho gasto com um prego enferrujado. Aí mais uma coisa. As coisas sempre viriam com um adjetivo que as fizessem mortas, fracas ou velhas. Porque as coisas por aqui são assim. Porque eu as deixo trancadas tempo demais, apertadas demais, confusas demais e, sendo domado por aquilo que sinto, acabo por nunca saber quem sou.

Neemias Melo

sábado, 24 de março de 2012

Os olhos fechados queriam mudança repentina de cenário quando abrissem. O aviso prosseguia preto. A promessa tatuada sempre. Nos lábios, a fala repetida: "Estou partindo". Geralmente seguida de atrasados pedidos de desculpas ou chorosos silêncios de consentimento, a frase neblinosa perdia a textura de sal, ganhava cor de chão; e, por uma vez - uma só - tragou-se por si só aos pulmões, dando a si mesma vida, isolando as pontas soltas dentro do peito.

Uma só vez não houve resposta; os ouvidos não reconheceram ameaça, o tamanho do estrago era idêntico ao da possibilidade de cura. "Estou partindo". E, partido, permaneceu exatamente onde estava - onde os olhos alcançavam uma porção vazia o bastante para não apresentar risco ao corpo que tornou-se volátil para não se diluir. Partido ficou até que o sol nascesse e alguém acordasse no outro lado da cama. Depois abriu os olhos, soube ser também cenário, abraçar a tatuagem, suspender o aviso. Pediu ao sol apenas que a noite outra vez voltasse, e, com ela, toda a incerteza de se acordar com a falta que se pretendeu dormir.

Neemias Melo