terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Saudade
Cabe, no teu sorriso, o meu amor
e, nos teus dentes, o mistério do vento.
Cabe, na tua mão, a minha vida
que, de padecer, empalidecida,
recorda teu beijo com gosto de tempo.
Neemias Melo
e, nos teus dentes, o mistério do vento.
Cabe, na tua mão, a minha vida
que, de padecer, empalidecida,
recorda teu beijo com gosto de tempo.
Neemias Melo
domingo, 19 de fevereiro de 2012
A questão é que orgulho e egoísmo são coisas totalmente distintas, mas possuem o mesmo cheiro, a mesma cor e o mesmo gosto. No final das contas, você nunca vai saber se a trança que protege o seu coração é bordada de lágrimas ou pedras. O isolamento, por outro lado, é bem simples. É uma questão de precaução. Apenas deixar seguro aquilo que, sabe-se lá por quanto tempo, ainda não se juntou às folhas que deixamos esparramadas, contendo frases avulsas, palavras desencaixadas, parágrafos tortos. Amor desentendido, você diria. Não, não, companheiro. Eu me refiro ao passado que ainda não reconheceu seu posto de morte e sempre dá um jeito de soltar um suspiro fraco - desses que derrubam qualquer certeza de que o sorriso, ao menos uma vez, era verdadeiro.
Neemias Melo
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Absconditus
Naquela noite, em vez de ver a lua, a lua me viu. Como se se escondesse atrás do muro numa brincadeira, ela espiou quando fechei a porta do quarto. Notei que alguma coisa havia se movido atrás de mim, e um brilho perolado abrandou-se quando me virei. Caminhei até a janela, afastei o pano que a cobria. Com calma, subi o olhar até encontra-la. Entre as grades, eu a descobri, olhando-me como uma menina que encontra um tesouro enterrado. O céu, pintado de nuvens rarefeitas e muitas, dava a impressão de ser infértil e rachado como solo sertanejo. Uma só estrela brilhava pomposamente entre o anil escuro da noite e o cinza empalidecido das nuvens banhadas de lua – o astro que não era meu porque me encontrou primeiro, escondida atrás de um par de grossas cortinas que deixaram escapar, por fisgas discretas, um fulgor diamantino que me avisou: “és assistida”. Mirando-a, sorri, mas ela não me retribuiu o sorriso; fitou-me. Ventou e, como se duas mãos me abraçassem pela cintura, acheguei-me à parede, entrelacei os dedos nas grades, exalei um hálito apaixonado e quente - típico de alguém que não sabe dançar, mas é chamado pela lua a fazê-lo. Eu disse a ela: “Não sei dançar, não, dona Lua”, mas ela não ouviu; fez ventar mais forte e a alça direita da minha camisola escorreu pelo meu ombro esquerdo. Fui ajeitá-la, mas o vento tornou-se ainda mais impulsivo, fazendo escorregar também a alça direita. Abracei os seios a evitar a nudez e olhei-a novamente, curiosa. Uma faixa de nuvem passava-lhe pela base, como se sorrisse e calasse o riso timidamente com a mão - uma fresca brisa substituiu o anterior ar agitado que, sem perceber, desprendeu-me os cabelos, agora soltos e bailarinos em minhas costas.
Demorei a observá-la até que a nuvem se retirasse e ela voltasse a fitar-me silenciosa. Um palpite absurdo passou-me pela mente e sacudi a cabeça, recusando-o. Não poderia ser. A brisa continuava; balançava levemente o breve acúmulo de seda caído sobre meus antebraços postos num abraço individual de cotovelos. Ela, ainda misteriosa, permanecia impassível, quase séria. O mesmo palpite voltou a me transpassar e, dessa vez, não o expulsei com a veemência anterior. Mas seria possível? Pensei, e, de imediato, a brisa intensificou-se, balançando minhas vestes mantidas pelos meus braços, como se me lesse os pensamentos. Mas será? E intensificou-se um pouco mais. Então, entendi. Não era dança, o que a lua queria. Mas como? E, sem argumentos plausíveis, reconheci que eu não podia trair a sequência dos fatos. Ela havia me descoberto, e não eu a ela. Mas e se... E se eu a tentasse persuadir através de sopros? E se eu a tivesse achado primeiro? “Não achou”, ela me disse. Não achei, consenti. Eu a pertencia. Vagarosamente, afrouxei o abraço, o tecido, agora em queda, fazia cócegas nos pelos abaixo de meu umbigo. Peguei espessas mechas louras que se desprendiam de minha cabeça e usei-as para tapar-me os seios. Prontamente, o vento voltou – afastando-as. Olhei os meus seios à mostra, os mamilos rijos, uma pinta escura acima da auréola direita. Voltei a ver a lua, que parecia estar num cenário diferente do de minutos atrás. Percebi que havia deixado passar algo. As nuvens - as tantas de antes - imitando o meu despojo, haviam passado. Também estava nua, a lua. Dali, eu não via do mundo mais do que minha visão alcançava da janela, mas senti como se nada mais precisasse ser visto e nenhum segredo houvesse maior do que aquele. Ouvi, de algum modo, a lua me dizer que eu e ela tínhamos uma coisa em comum, e eu, instigada, procurei o que era. Num céu todo limpo, apenas uma pinta brilhava perto do seio da lua. Uma pinta? Olhei de novo meu seio direito e ali havia uma estrela, num corpo todo nu. Sorri. Voltei os olhos e, dessa vez, ela sorria de volta - toda aberta e convidativa a mim e minha nudez. Todo aquele esplendor anil cobria-me e eu percebi que, em vez de infinito, o céu era apenas um espelho que refletia a minha imagem clara, loura, crua, imersa em frescor e despida de sono. Prossegui de olhos abertos, ao máximo, para entender o que a lua continuava a me dizer, mas já não dizia nada. Toquei a pequenina e negra mancha no meu seio e a estrela, no céu, piscou. Tudo compreendi – num tipo de entendimento que eu não ousaria escrever e certamente falharia se tentasse.
Tempo depois – e não tenho certeza de quanto – fui visitar meus avós no interior do Estado. Lá havia um lindo lago – escuro, profundo e gelado, como uma ponta de dedo salivada que alcança uma faísca de carvão ainda viva. Devo dizer que, depois do meu encontro com a lua, passei a dormir sem roupas, como se elas me parecessem mais pesadas do que de costume. Quase tudo me parecia desnecessariamente pesado. O céu, num dos dias em que lá estive, chamou-me às pressas, enquanto dormia. Levantei-me, fui até o lado de fora da choupana. Talvez fosse tarde, mas o tempo não se é contado numa noite em que o infinito pede companhia. O céu me chamava para o lago e eu não via razões para não obedecê-lo. Caminhei sem receio algum de me perder. Meus pés sentiam a grama roçar no espaço entre os dedos e um calor amigável brotava das minhas panturrilhas. O terreno plano das terras de meus avós deixava a impressão de que o ajuntamento de águas sombrias e o céu sem estrelas eram apenas um, e apenas uma parede fluida separasse o mundo dos sonhos. “Entre”, o céu ordenou. Entrei. A água estava demasiadamente fria, mas o fogo de minhas pernas parecia se estender por todos os lados. “Deite-se”, prosseguiu em ordenar, sem nenhuma pressa em sua fala. Deitei-me. Com todo o corpo coberto de água, apenas a face mantinha-se exposta à serenidade da brisa. Pequenas folhas imersas bailavam em minhas nádegas, meus ouvidos ouviam um ritmo bonito e desconexo de pedras a rolar e sinos abafados. “Venha”, ele falou, como se estivesse dentro da minha cabeça e eu o pudesse sentir pressionando-me o cérebro. Logo a face também imergiu.
No momento seguinte, sem que houvesse aviso prévio, senti que era engolida pelo frio, meu corpo era imerso em escuridão e, então, sob uma curta sobreposição do sentimento de desespero ao de perda, mergulhei numa imensidão azul marinha, senti que caía, mas comecei a levitar, a perder as formas do meu corpo. Ultrapassei as nuvens, as massas oscilantes de ar, e, antes que digerisse o que acontecia, estava no topo – mesmo que me parecesse improvável - do céu. Observei atentamente o território embaixo de mim e pude ver que estava sobre a minha casa, mas que podia abraçar o mundo inteiro. Uma sensação estranhíssima. As casas pareciam pequenas peças de encaixe, mas tudo me era conhecido. Senti que podia espiar a minha janela. Impulsionei minha massa para frente. Notei que podia. Sorrateira, pus-me logo a explorar o espaço cedido. As cortinas estavam fechadas, mas uma fresta aberta revelava-me que alguém estava no meu quarto. Seja quem quer que fosse, notou que era visto. Apressei-me em voltar ao meu posto, receosa. Vi duas mãos brancas afastando as cortinas, aproximando-se da janela. Notei que as mãos eram tão pálidas quanto a lua, mas, ao ver o reflexo dos olhos do ser que se revelava entre as grades, percebi que tão pálida quanto as mãos da menina de camisola era o meu esplendor esbranquiçado. Eu era a lua, e, percebendo que via a mim mesma dias atrás, pensei em chorar ou desabar dali, de encontro a mim mesma, mas, em vez disso, o que produzi foi apenas vento. Um místico e atrevido vento.
Neemias Melo
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
sábado, 11 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções. "Nunca termina nada, o menino. Faz qualquer um acreditar na sorte quando começa alguma coisa, mas logo empurra descrença goela abaixo nessas pessoas, que não mais fizeram do que estender as mãos, e vai embora", eu ouvi ela contando à minha avó. Não mentiu. Das coisas, sempre quis o pior, a parte podre, o desequilíbrio pendente para o desastre. A vida tem seu preço e eu me atrevo a cobra-lo de quem se esquece de correr o risco. Faço questão de que as coisas sejam, de todo, desajustadas. Acostumem-se os antebraços com as marcas deixadas pelas unhas de outrem enterradas na pele, implorando para que a partida não chegue cedo. Adormeçam os cotovelos para que o frio não fustigue com tanto fervor a carne, quando o vento contrário parece a ponto de açoite. E que dar as costas não custe tão caro - fecham-se os olhos, espremem-se os lábios, tornam os pés à porta e, depois de atravessá-la, cerra-se tudo, o tempo se cala. Ando sobre as coisas sem medo de cortar os pés - minha cor é quente, como quente é a chama da vela que me demoro a enamorar, bailando a ponta dos dedos rapidamente em volta do pavio enegrecido. Caem as coisas à medida que passo e não torno a calcular o tamanho do estrago. Cresceu a vida à minha volta como um empilhamento de caixas de papelão, cheias de livros amarelados e de cheiro forte e áspero; sinto sempre a insegurança de ser pego de surpresa pela chuva, diluindo-se os papéis, cobrindo-me de uma massa espessa de histórias esquecidas e verdades ainda guardadas. Mas eu, sobretudo, caminho. Não que seja necessário, ou por questão de culpa ou erro; caminho porque as pernas ainda funcionam e porque há qualquer pedaço de caminho pronto a receber a mim e a essa atração de desgraças que me acompanha. Culpa dos homens por haverem se corrompido com essa fraqueza tosca e essa fé bruta no impossível. Eu parto, mas parto de olhos abertos, a sentir todas as lacunas que deixo em fundas pegadas por onde passo. Eu aperto no peito o casaco que me isola dos perigos do vento; busco, num bolso, um isqueiro prateado, noutro, puxo um cigarro, ponho-o seguro entre os lábios secos, contraio-os em volta do objeto, protejo o fogo com uma concha feita de mãos, acendo-o, trago; o gosto é, inicialmente, amargo - como todas as coisas são amargas, de início - e prossigo.
Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções, e eu dizia a ela que é porque o cigarro tem um gosto mais agradável ao palato depois de algumas tragadas, e que eu era uma espécie de cigarro; que um dia as ruas me espremeriam entre as esquinas, me prenderiam entre alguns muros, sugariam de mim todo gosto forte e droga letal - eu seria qualquer coisa que a vida guarda no bolso e espera a hora mais fria da madrugada para acender e sorver. Eu era qualquer coisa que deveria evitar findar-se, porque eu evitava o fim de tudo. Eu só espero um clique num isqueiro prateado para, então, ser sugado até desaparecer.
Neemias Melo
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Praça da Liberdade
Pois cantava aquele pássaro como se piasse abruptamente
Mas bem sei que me chamava às pressas
Porque punha a goela a exalar uma sinfonia aguda
e fitava-me, usando as asas como um leque
Produzindo vento pra que eu também balançasse as minhas
[asas que nunca vi]
“Piá, piá, aqui, aqui, que é?, que é?, sobe cá”
E, retumbante, saltava de galho em galho
Abria o bico descontente, brandia golpes de altivez
“Aqui, aqui! É aqui, piá. É aqui!”
Repetia, impaciente, encarando as minhas pernas desajeitadas
Meus longos braços descomunais e irregulares
E, sem entender, prossegui transeunte
Deixando, ali, às sombras d’um Jacarandá
O pequenino que ajuntava estímulos, jeitos e cordas
Pra puxar um menino-pássaro para a vida que o sustentaria
Tal que as pernas não fraquejassem e as penas, enfim, crescessem
Mas ouvi que me chamava, o companheiro,
Como se já fosse eu moço engravatado
Que, daquilo, não fiz eu sequer menção - e muito menos esforcei-me
Que, daquilo, não fiz eu sequer menção - e muito menos esforcei-me
Em impulsionar o corpo, expulsar a queda, aceitar o canto
Que me fazia ser igual ao sabiá
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