quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Contas-me quem sou mas não sabes meu nome. Quem sou eu, amor? Quem sou eu? Costurei um de meus átrios num de teus ventrículos, minhas impurezas desaguam em ti. Tens os meus excessos mas não conheces minhas delícias, não recebes minha vida, não sacias tua fome. Arranquei a pele para que com ela te cobristes no frio, dei-te o corpo para que encontrasses desejo, dei-te palavras como estrelas - não se podem contar, não se pode alcançá-las. Teu pescoço rijo, teus ombros virados. Percebes que nunca me olhaste no olho? Via em ti um espelho, reconhecia minha feiura, meus detalhes falhos. Que viste em mim, senão meus próprios erros? Alguma vez olhaste para mim como alguém que merecia algo melhor? Eu, por ti, melhorei. Não tenho amigos, não trago sorrisos, escondi minhas lembranças. Trago no peito apenas lamentos e cheiro de chuva. Não tenho tua facilidade, tua confiança. Mas eu tinha belezas, e eu as entreguei-te. Todas elas. Como é que elas perderam o valor para mim? Não valem nada, a minha beleza, nem a beleza do mundo. Tu não as vês, de qualquer forma. Ninguém as vê. Sou outro, tenho mudado. Tenho calado tantos medos, que eles se solidificam como estátuas e me vigiam constantemente. Ando devagar. Devagar penso, devagar me reconstruo. Hoje, és mais uma lembrança escondida, e eu apenas certeza. Não sou o único que me desconhece. Tu nunca soubeste quem sou e jamais amou, como eu amei, o outro alguém que já fui.

Neemias Melo

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