quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

E, agora, vejo-te a olhar-me assim,
e - não a mim - teus olhos veem.
E, logo depois, sinto-te a beijar-me a fronte,
mas - não minha pele - teus lábios tocam.
E, enfim, abraço-te macio como uma pluma,
porém - leve como uma montanha - suspiras.
E sussurro algum pedido de que te achegues,
que venhas me amar mais de perto.

Vens:

os olhos anuviados, a boca pálida, os braços caídos -
Tão perto quanto deveria ser
o outro lado do mundo.

Neemias Melo

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eu vi. Um rapaz se olhava no espelho e a imagem refletida o contrariava. "Quem és tu?", perguntou o vidro. "Sou tu. Solto. Sol to. Soutu.", disse o próprio reflexo, desenhando as palavras enquanto as pronunciava, sem esperar a resposta. Riu, riu e riu. Socou o espelho e o rapaz se despedaçou. O que o mundo conhecia não passava de um avesso da cena confusa que criou, sobre dois universos paralelos, um morto e um esquizofrênico, ambos despedaçados e canhotos. Eu vi.

Neemias Melo
Parem a vida, preciso descer!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Saudade

Cabe, no teu sorriso, o meu amor
e, nos teus dentes, o mistério do vento.
Cabe, na tua mão, a minha vida
que, de padecer, empalidecida,
recorda teu beijo com gosto de tempo.

Neemias Melo

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A questão é que orgulho e egoísmo são coisas totalmente distintas, mas possuem o mesmo cheiro, a mesma cor e o mesmo gosto. No final das contas, você nunca vai saber se a trança que protege o seu coração é bordada de lágrimas ou pedras. O isolamento, por outro lado, é bem simples. É uma questão de precaução. Apenas deixar seguro aquilo que, sabe-se lá por quanto tempo, ainda não se juntou às folhas que deixamos esparramadas, contendo frases avulsas, palavras desencaixadas, parágrafos tortos. Amor desentendido, você diria. Não, não, companheiro. Eu me refiro ao passado que ainda não reconheceu seu posto de morte e sempre dá um jeito de soltar um suspiro fraco - desses que derrubam qualquer certeza de que o sorriso, ao menos uma vez, era verdadeiro.

Neemias Melo